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Conheça Mateus Fazeno Rock, músico cearense que lança o álbum "Rolê nas Ruínas"
Vida & Arte

Conheça Mateus Fazeno Rock, músico cearense que lança o álbum "Rolê nas Ruínas"

Com disco de estreia lançado no fim de abril, cantor e compositor cearense Mateus Fazeno Rock fala ao V&A sobre referências, inspiração em vivências e rock de favela
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Mateus Fazeno Rock (Foto: Nay Oliveira / divulgação)
Foto: Nay Oliveira / divulgação Mateus Fazeno Rock

O convite é por um "Rolê nas Ruínas" - nome do disco de estreia de Mateus Henrique Ferreira do Nascimento, 25, responsável pelo projeto Mateus Fazeno Rock. O gesto de ver possibilidades em meio aos resultados de cisões de mundos desponta como uma das principais marcas do artista. "Algo se destrói quando saio da minha casa e atravesso um mundo que não foi feito pra mim. Os mundos se acabam. Pra mulher rica que tem medo que eu leve a bolsa dela (citando um verso de "Trilha Sonora para o Fim do Mundo", nona faixa do álbum), o mundo dela se acaba na minha presença, entendeu? Não só na minha, mas em presenças como a minha. Esse disco é sobre mundos em contato, cisão, e o que se destrói na travessia desses corpos", define.

Travessia é algo que ele conhece bem. Morador da Sapiranga, viveu "atravessando a Cidade, sempre, pra fazer qualquer coisa". "Tanto a vida diurna - de ensaio, trabalho, visitar um amigo ou alguma coisa pra resolver - quanto a noturna - sair pra uma noite, um show, uma festa - exigem de mim uma minicruzada", divide. Foi antes disso, no bairro de nascença, que teve os primeiros contatos com arte e troca. "Aconteceu aqui na Sapiranga, durante uns seis anos, um sarau organizado pelos jovens e um movimento político da época. Tinha um projeto, Arte no Beco, voltado a ensinar a 'pivetada' e foi por ele, com 14 anos, que fui aprendendo a viver essa troca. Entrei pra tocar percussão, mas passei por contrabaixo, baixo, violão, cantei", elenca. Uma edição maior do sarau, com bairros como Serrinha e Bom Jardim, foi, para Mateus, a primeira experiência de "movimentação com música e pessoas".

EXCLUSIVO OP+: Confira Mateus Fazeno Rock cantando trecho de "As Vozes da Cabeça", faixa de abertura do disco "Rolê nas Ruínas"

Foi entre 2017 e 2019 que passou a amadurecer composições, baseado em experiências e nas opiniões de quem ele "confiava na troca". Um desses é Rami Freitas, multi-instrumentista e amigo, convidado a produzir o disco. Versos de "Melô do Djavan", faixa 6, dão pistas sobre o processo: "Ralo de manhã / mas não tem dinheiro pra gravar meu som / faço como posso / quase que não posso / faço mesmo assim". Para custear pagamentos dos envolvidos, passagens de ônibus, almoços e produção de clipes, Mateus foi juntando o dinheiro de convites para pequenas apresentações que foram se acumulando. "E também tocando nos ônibus e trabalhando de entregador numa lanchonete que tinha aqui perto. Tudo na missão de conseguir custear".

O primeiro show oficial, definido por ele como "abertura de processo", foi em 2018, na calçada do Centro Cultural Belchior. Na ocasião, se apresentou sob o nome de Mateus Estudando Rock de Favela. "Se for pensar nas texturas vinculadas ao disco, me inspirei muito no punk e no grunge, mas penso como rock de favela muito por causa das demandas que trago. Quis contrapor um movimento de rock que existe no Brasil que é muito branco, feito no condomínio, por gente que tem estúdio. Não eram essas as condições e o contexto em que minhas músicas surgiram e nem é essa a origem do rock, se você for pensar. É um rock que traz demandas minhas e do meu território - ou pelo menos as que observo e acredito - e acho importante me colocar nesse lugar", estabelece.

O disco vai de samplear Nirvana à trazer batidas de funk, como em "As Vozes da Cabeça", que abre o trabalho com os artistas Caiô - parceiro em outras músicas - e Nego Célio. Já "Névoa" traz o reggae ao rolê. "Muitas das músicas surgiram a partir de mim tocando violão. Nunca ficam num ritmo definido, porque não toco muito bem, mas 'As Vozes da Cabeça', por exemplo, foi feita no violão com uma batida meio nada a ver, mas a melodia obviamente era de funk. Não sentei e falei 'vou fazer um funk', mas essas coisas vêm", considera. "E vêm porque estão no meu cotidiano, na minha casa, na minha rua, nos encontros com amigos, no meu fone ou no de algum vizinho. Estão comigo, compõem a sonoridade do universo em que vivo", avança.

Muitas das precisas letras do artista, por sua vez, surgiram, justamente, nas "minicruzadas" empreendidas por ele. "Pra chegar em casa, pego um ônibus, desço no Shopping Via Sul e ando uns 13 ou 14 quarteirões. Já contei uma vez, mas esqueci. Muita coisa já aconteceu. Tem toda a questão de morar numa área e ter um amigo que é de outra, mas não poder passar. Você convive com limites que tão circunscritos quando você é um corpo favelado, preto. Além disso, você passa por uma rua que tem uma pessoa que tem medo de você assaltar e, ao mesmo tempo, você tem medo da polícia", descreve. "Essa rotina entrou na música de forma muito espontânea porque o exercício de cantar, pra mim, foi o de ser muito sincero comigo, entender o que tô vivendo, o que me machucou e o que me fez mais forte", afirma.

Tudo, sem dúvidas, feito com muita parceria - seja nos shows de antes mesmo do disco ser produzido ou nas filmagens dos clipes. "Se é um momento que quero me sentir bem e também movimentar coisas fortes e importantes, é bom que eu vá com as pessoas que amo e acredito. Que elas possam movimentar junto comigo e que a gente possa levar um mundo. Ainda mais num país onde a arte é financeiramente dominada por pessoas e instituições brancas e ricas, não dá pra chegar só, voltar pra casa só, se sentir só. Não sei fazer nada só. Nem posso, nem consigo", avisa.

Rolê nas Ruínas, de Mateus Fazeno Rock

9 faixas

Participação de Caiô e Nego Célio

Onde ouvir: clique aqui ou acesse bit.ly/RoleNasRuinas

Instagram: @mateusfazenorock

 

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